Sobre DEUS: A filosofia de Boff e a ciência quântica de Goswami

O breve debate que segue diz respeito à pergunta que fiz à Leonardo Boff sobre sua opinião sobre as descobertas da física quântica e o pensamento de Amit Goswami sobre um DEUS quântico. A resposta é um interessante alinhamento entre sua filosofia e a teoria quântica de Amit.

PERGUNTA (link):

22/12/2011 9:29
Prezado Leonardo Boff,
Como disse uma colega acima, seus textos sempre me incentivam a vivenciar meu lado águia. Obrigado por sua liderança e por seus ensinamentos.
Gostaria de lhe fazer uma pergunta de um aprendiz: Tenho lido os livros do Teórico Quântico Amit Goswami (Universo Autoconsciente; Criatividade Quantica; Fisica da Alma e Deus nao está morto). Em princípio, tenho notado uma profunda coerência do que ele tem dito com a minha vivencia de Deus. O sr já teve contato com o pensamento de Amit? O sr acha que a física quantica está mesmo inaugurando um paradigma científica cuja base é a consciência? Vale ressaltar que a fisica quântica demonstra toda a limitação científica e ajuda a devolver a humildade aos cientistas.

Julio Resende

RESPOSTA (link):

Leonardo Boff
22/12/2011 19:20

Julio,
Conheci pessoalmente ao A.Goswami que vem muito ao Brasil. É considerado um dos maiores matematicos vivos. Ele assumiu a visão quântica da realidade. Esta é sempre uma emergencia da Energia de Fundo que continuamente mantem e sustenta todos os seres. A mecanica quântica afirma que materia não existe. Tudo é energia e campos energéticos. Matéria é energia altamente condensada, coisa que está já presente na fórmula de Einstein.O que Heisenberg mostrou foi a inarredavel ligação entre sujeito que conhece o objeto do conhecimento. O seujeito determina se ele aparece como onda ou como particula.Creio que a visão quântica nos facilita entender a realidade de Deus como Energia Suprema,o Espírito Absoluto permanentemente criando e sustentando a criação. Para os cosmologos que assumiram a perspectiva quantica, o universo como um todo está cheio de proposito e não é algo largado ao acaso. Das energias originárias passamos à matéria, da matéria à vida, da vida à consciência, da consciênia à auto-consciência. O espirito é aquilo que une e reune toda as coisas está presente em todo o universo. Entre nosso espirito e o espirito do Universo a diferença não é de principio mas de grau. Em nós de forma auto-consciente e no Universo numa forma propria. Assim em todos os seres. Creio que a mecanica quantica nos facilita representar Deus como uma Realidade sempre viva, sustentando todo o universo e levando-o a uma convergencia que não saberemos quando se dará.
Boa sorte e feliz Natal

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Carl Jung e a Física Quântica

Diversas idéias defendidas por Carl Jung agora estão sendo discutidas pela física quântica como por exemplo inconsciente coletivo, sincronicidade, psique atemporal, etc. O diálogo entre estes gigantes está apenas começando. Quem anima de participar? Segue uma entrevista rara com Jung.

Elomar, Manoel de Barros e um pouquinho de física quântica

Por: Júlio Resende Duarte

Este artigo é meu presente de Natal aos meus amigos e estudantes

Gosto muito do ouvir Elomar, um violêro do Sertão. Sua música e poesia são bonitas demais. Do meu quarto, conheci a terra dos cantiguêros e suas lindas histórias. Com a luz apagada, minhas raízes imanentes eram podadas e eu me libertava daquilo que me fixava ao cotidiano e à minha própria história. Pela música do Elomar, eu viajei, voei alto pelo Sertão. Pelo dele e pelo meu Sertão. Pra dentro da patrea vea. Eu me reconheci um sertanez.

Elomar se formou arquiteto e logo se decepcionou com a profissão. Não lhe caia bem trabalhar para os ricos. O músico voltou para as barrancas do Rio Gavião para criar cabras e compor sua música. E lá ele permanece cumprindo sua vocação que é criar. Na teoria quântica, criatividade é o diálogo entre o seu self clássico e o self quântico. O primeiro é o ego, aparentemente um indivíduo no mundo, separado do resto. Já o segundo, é o inconsciente coletivo, o Eu Maior. Neste modo, há apenas uma unidade, atemporal. Todos os seres humanos tem acesso a esta modalidade quântica. Basta escolher, transcender. Leonardo Boff, na palestra que segue, nos ensina um pouco mais sobre transcendência. O nosso lado galinha é o imanente, a raiz que nos liga ao cotidiano, à matéria que nos cerca. Já o nosso lado transcendente, quântico, é nossa vocação de ser águia, de criar, de subverter, de comer a maçã, de dar um salto quântico, de vivenciar nossa modalidade onda, una, transcendente, universal.

Meditadores experientes e artistas, por exemplo, são capazes de baixar sua frequência cerebral consideravelmente. É nas frequências cerebrais mais baixas que a criatividade pipoca na sua cabeça como um processo de descontinuidade, um salto para fora do sistema, a criação do novo. A nova ideia surge como o salto quântico do elétron de uma órbita para a outra. Surge do diálogo entre nosso ego clássico e quântico. Outros métodos espirituais como a reza, a dança e o canto são formas de baixar a frequência. Alguns tipos de turismo também proporcionam este tipo de experiência, como por exemplo as viagens de bicicleta.

No ócio (criativo), na prática espiritual e na música, vivenciamos a criatividade. No entanto, as idéias são apenas possibilidades no domínio transcendente. Eles aguardam até serem materializadas. Este é o momento da prática (Amit Goswami em Criatividade Quântica). Paulo Freire nos ensinou a importância da Práxis: relação dialógica da reflexão e da prática. Este conceito é também parecido com Águia e a Galinha, Yin e Yang. É também semelhante à filosofia de vida de alguns baianos e outros cuiabanos. É muito importante trabalhar, mas é mais importante trabalhar pouco. Excelente receita para o diálogo entre os modos clássico e quântico. O Cuiabano, por exemplo, produz e senta na cadeira de balanço, produz e pesca, produz e joga bola, produz e canta o siriri. E pensar que aqueles outros habitantes do Mato Grosso que são impregnados pela lógica da produção, trabalho e consumo excessivo chamam a cultura tradicional da baixada cuiabana de preguiçosa. A cultura do progresso é baseada na física clássica e precisa se atualizar pois suas leis não se aplicam ao mundo subatômico. Sugiro também aos progressistas (econômicos) que atualizem sua física!

Da mesma forma que viajei pelo Sertão, vivenciei o pantanal de Manoel de Barros. O poeta, pantaneiro mato grossensse, é um legítimo representante desta linda cultura. Sua contribuição para o mundo é uma poesia que emociona e provoca no leitor o surgimento do novo. Ele escreveu: tudo que não invento é falso. A criatividade o faz cumprir a vocação humana que é criar e contribuir com o coletivo. Materializar o propósito universal. No documentário ‘Só dez por cento é mentira’, o poeta alega que os outros noventa porcento são criação. Este é um perfeito exemplo de quem faz um diálogo intenso entre seu modo imanente e transcendente. Aquilo que é condicionado ao passado em sua poesia é mentira, é apenas imanente. O resto é a verdade, pois é a criatividade, um salto quântico, é quando a verdade universal e atemporal desabrocha no poeta.

É exatamente este o caso do Elomar. Ele vive no Sertão, onde tem raízes profundas e imanentes. No entanto, materializa sua linda música ao transcender na mente. No documentário Sertanias, o músico diz que só escreveu apenas dez por cento do que já compôs na sua cabeça. E olha que ele já produziu algumas dezenas de óperas sertânicas. Notem que ambos se dedicam integralmente às suas vocações. Eles sairam da caverna de Platão, romperam com a inércia do ‘eguinho’ e se dedicam ao diálogo com o ‘egão’. A filosofia de vida destes dois nos ensina muito sobre espiritualidade, que pode ser compreendida também como o desenvolvimento pleno do potencial humano. O violêro sertanez se tornou música e o poeta panteiro árvore. E você, já experimentou criatividade? Já experimentou o potencial infinito de sua modalidade águia? Fique à vontade se quiser tentar e saiba que corre o risco de ser feliz.

Outros artigos sobre física quântica

Como é ter um derrame e iluminação espiritual ao mesmo tempo?

Este é o TED mais espetacular que já assisti. Jill Bolte Taylor é uma americana que pesquisa cérebro e doenças mentais. Em uma manhã incomum, ela teve um derrame e ao mesmo vivenciou uma experiencia de iluminação (nirvana no budismo, samadhi na yoga, baixou o espírito santo no cristianismo). Neste vídeo, ela conta com detalhes a experiência que vivenciou e ensina um pouco sobre o cérebro e seus modos clássico e quântico. Ela conta que o lado esquerdo é responsável pelo ego (eu individual) e o direito é responsável pelo ego quântico (eu maior; nós todos, uma unidade, a consciência). Jill foi aplaudida de pé e assistida por mais de 6 milhões de pessoas. Ciencia e espiritualidade estão se aproximando novamente. Este é o novo paradigma. Somos todos um só.

http://ted.com/talks/view/id/229

Sustentabilidade, Física Quântica e Espiritualidade – parte 1

Por: Júlio Resende Duarte


A física Clássica e a ideologia do progresso


Esta é uma série de 10 textos sobre sustentabilidade, espiritualidade e física quântica. Pretendo compartilhar um pouco da minha caminhada em busca de compreensão do que está acontecendo com o mundo. Eu sempre tive dentro de mim um otimismo inexplicado sobre o futuro da humanidade. No começo de minha busca, fui descobrindo todos os argumentos que me mostravam o lado sombrio e a decadência da humanidade. No entanto, o otimismo permanecia e comecei a descobrir os argumentos que me indicavam que estamos inaugurando uma nova fase lindíssima na evolução da humanidade. É neste ponto que se entrelaçam sustentabilidade, física quântica e espiritualidade. Espero que estes textos provoquem e contribuam para esta mudança de paradigma.


Sustentabilidade é uma nova sociedade emergente, com valores bem diferentes da sociedade industrial cujo objetivo máximo é o crescimento econômico ilimitado. Do ponto de vista desta visão decadente, a felicidade só pode ser encontrada na matéria e na acumulação de bens. A hipótese é de que os países só podem ser felizes (desenvolvidos) se crescerem continuamente. O mesmo raciocínio é aplicado às empresas e aos cidadãos e seus salários.

Esta visão de mundo é baseada na ciência clássica, que se desenvolveu amplamente a partir de 1500. Alguns cientistas fizeram descobertas fundamentais para a construção desta visão. Copérnico, por exemplo, tirou a terra do centro do universo e a colocou no sistema solar, que faz parte da via láctea e assim por diante. Galileu postulou que o universo poderia ser explicado por meio de leis matemáticas determinísticas. Descartes separou corpo de mente para que a religião cuidasse da espiritualidade e deixasse a ciência cuidar da matéria. Newton explicou o universo como uma máquina, formada por partículas elementares que, ao se relacionar (gravidade, etc.), fazem o todo maior funcionar.

Esta visão de mundo passou a influenciar toda a humanidade proporcionando a revolução industrial, a conquista de todos os recantos da terra e o surgimento da ideologia do progresso (crescimento ilimitado). A espiritualidade e as religiões foram relegadas a um segundo plano. Afinal de contas, o universo seria uma máquina newtoniana e o mundo da energia, da unidade e da transcedência passariam a ser compreendidos apenas como fenômeno da matéria.

Foi esta visão de mundo que nos levou as atuais crises social, ambiental e ética. Esta visão nos levou ao individualismo, ao rompimento com a mãe terra, ao estresse, ao medo, à violência, à guerra por petróleo, ao automóvel…Quando tentamos enxergar o futuro da humanidade e do mundo por este prisma nos tornamos pessimistas, pois, ao que parece, estamos caminhando para um fim catastrófico.

No entanto, estamos no limiar de civilações. Enquanto este velho paradigma não nos traz mais respostas, estamos inaugurando uma nova forma de ver e se relacionar com o mundo…

Na próxima semana: “universo não é uma máquina newtoniana”

 

 

Sustentabilidade, Espiritualidade e Física Quântica – parte 2

Por: Júlio Resende Duarte


O Universo não é uma máquina newtoniana

 

No começo do século XX, outras descobertas científicas começaram a balançar a idéia de que o universo é uma máquina gigantesca que funciona por meio de leis determinísticas. Planck descobriu que os elétrons saltam de uma órbita para outra sem passar no espaço intermediário. Como assim? O elétron some de uma órbita e aparece em outra instantaneamente? É isso mesmo. Ele não atravessa o espaço-tempo. Neste caso, ele não obedece à teoria de Einstein que diz que todo corpo viaja no máximo até a velocidade da luz, ou seja, tudo viaja no espaço-tempo e tem uma velocidade finita.

Em seguida, descobriu-se que a luz é ao mesmo tempo onda e partícula. Se construímos aparatos científicos de uma determinada forma, a enxergamos como partícula. Se utilizamos outros aparatos, a enxergamos como onda. Bohr postulou o princípio da complementaridade para explicar que os objetos são, ao mesmo tempo, onda e partícula. Tratam-se de dimensões da mesma realidade.

Os físicos quânticos também descobriram que a luz pode estar dois em lugares ao mesmo tempo. Mas como a física clássica explica isto? Ela não o faz.

Segundo a física clássica, se for possível saber a posição e a velocidade de um objeto, será possível calcular a trajetória. Heiseberg descobriu o princípio da incerteza. É impossível saber a posição e a velocidade ao mesmo tempo de um objeto quântico. O máximo que conseguimos é saber probailidades de encontrá-lo em um determinado local. Além disso, os objetos podem mudar de trajetório sem qualquer interferência de outro objeto.

Luz em dois lugares ao mesmo tempo? Eletrón que salta de uma órbita para outra sem passar no espaço tempo? Onda que é ao mesmo tempo partícula? Estes paradoxos surgiram porque a física clássica não os conseguia explicar. Assim, estas e outras descobertas da nova física quântica começaram a colocar em chek a visão mecanicista do mundo.

Mas será que a física clássica errou completamente? Certamente não. Hoje, sabemos que eles acertaram na metade da explicação de como o universo funciona. Realmente a interação entre os corpos é a metade da explicação. Newton, Eistein e seus colegas foram brilhantes em explicar a chamada Causação ascendente. Mas para resolver estes paradoxos, a ciência precisava avançar para descobrir o que mais faz o universo funcionar. Trata-se de uma outra fonte de causação. Qual? Veja no próximo texto. O que adianto é que o universo não é uma máquina newtoniana.

Sustentabilidade, Espiritualidade e Física Quântica – parte 3

Por: Júlio Resende Duarte


Capra, ciência e religião

 
A ciência e a física demoram décadas para fazer descobertas importantes. Em muitos casos, estes avanços não são facilmente compreendidos pelas pessoas comuns, que não trabalham com ciência. Às vezes, gasta-se mais tempo para uma fórmula da física chegar no linguajar comum e poder ser aplicada no dia a dia do que foi gasto para prová-la verdadeira.

A física quântica começou suas descobertas há um século aproximadamente, mas somente agora esta chegando no linguajar comum. Um dos autores que se tornou conhecido por fazer esta ponte do conhecimento foi Fritjof Capra. Entre outros livros escreveu O Tao da Física e Ponto de Mutação. Em um espetacular insight, o autor comparou as descobertas na nova física com as tradições místicas do oriente: hinduísmo, budismo, pensamento chinês, taoísmo, zen. Ele traçou paralelos e defendeu que a física quântica chegou a conclusões semelhantes a estas filosofias. A ciência o fez pelo método analítico racional, ou seja, por observação da realidade. Já os orientais o fizeram por meio da intuição, que é potencializada pelo desenvolvimento da espiritualidade. Entre outras técnicas, a meditação foi um dos caminhos utilizados para chegar a tais conclusões.

Capra argumentou que ambos, ciência ocidental e misticismo oriental, concluíram que há uma unidade entre todas as coisas: fazemos parte de um todo maior que é uma coisa só, orgânica. Não há separação entre pessoas, alfaces e planetas. Somos um organismo vivo só. Outra conclusão é que os opostos fazem parte da mesma realidade: bem e mal; yin e yang, caos e criação, onda e partícula. Não é possível separá-los dualisticamente como propôs Descartes e a física mecanicista.

Outra interessante semelhança é a conclusão que o futuro não pode ser previsto por leis matemáticas, pois o universo é dinâmico. O novo sempre aparece. Vamos do equilíbrio para o desequilíbrio constantemente. Do excesso do yin para o equilíbrio e depois para o excesso do yang. Em Ponto de Mutação, Capra defende que a sociedade industrial é um desequilíbrio dos valores yang, ligados ao masculino, racional, agressivo. Nos últimos 300 anos consideramos a terra uma máquina e as pessoas recursos humanos. Construímos um modelo de sociedade baseado na dualidade homem-mulher, pessoas-natureza, mente-corpo, humanos-deus. Hoje, o desequilíbrio é aparente.

Capra argumenta que a crise que enfretamos hoje em dia se deve a uma visão errônea do mundo. O universo não é uma máquina e a matéria não é a base de tudo. Qualquer modelo de sociedade que seja baseado nesta premissa terá problemas de se sustentar ao longo do tempo.