LULA: nem anjo nem demônio

LULA: nem anjo nem demônio

Quando me observo atentamente, vejo em mim luzes e sombras. Por um lado, sou amoroso, colaborativo, prestativo e gentil. Por outro, sou raivoso, competitivo, egoísta e vaidoso. O mais difícil diante desta aparente dualidade é compreender que não tenho dois lados opostos, como se fossem uma disputa entre o bem e o mal. Entendo que minhas sombras e luzes se complementam, formando um Ser indivisível. Seria bem mais simples para minha esposa se ela pudesse se casar apenas com minhas qualidades, mas o pacote é completo. Diante desta compreensão, o compromisso que reitero comigo mesmo e com meu coletivo é de buscar o aprendizado constante para potencializar minhas qualidades e amansar meus dragões.

 

Toda nação é também um Ser coletivo, mas bem mais complexo do que um indivíduo. Cada parte deste Todo é como um holograma porque contém potencialmente todas as suas qualidades e defeitos. Quando observo o organismo Brasil, assim como no meu caso, também vejo suas dimensões de sombra e de luz. Somos aprendizes da democracia, da cidadania, da civilidade e de muitas outras conquistas necessárias. Neste sentido, os políticos não são somente representantes dos cidadãos, mas eles próprios são também cidadãos e carregam consigo as mesmas sombras e luzes que todos os outros. Os políticos são, portanto, hologramas de sua sociedade. Lula não é diferente. Por um lado, seu governo foi o mais importante da história recente do Brasil. Para mim, basta dizer que, em 12 anos, foram criadas 18 novas Universidades e 422 Campi de Institutos Federais, sendo que existiam apenas 140 destas Escolas Técnicas até 2002. Para quem não conhece o Instituto Federal, vale dizer que sua educação apresentam índices europeus de qualidade. Tenho a honra de trabalhar em um destes locais. Por outro lado, o governo Lula foi horrível por ter se afundado na corrupção sistêmica que envolve os três poderes, o setor empresarial e diversos segmentos da sociedade.

 

De um lado, os apaixonados por Lula e seu relevante legado político preferem não enxergar os erros graves cometidos, como se tivessem um olho vendado. Pelo outro, há os odiosos que apenas enxergam a corrupção do seu governo e são incapazes de reconhecer os avanços sociais, pois também mantém um tapume no olho. Entretanto, Lula não é nem anjo e nem demônio, é apenas luz e sombra, assim como todos nós. Seu governo foi sim capaz de dar um salto importante em direção à justiça social, ao mesmo tempo em que se afundou em corrupção. Diante desta complexidade, posicionar sobre seu legado não pode ser nem ato de paixão e nem de ódio. Entender esta situação apenas por meio de uma destas emoções extremas seria o mesmo que um marido que quisesse partir ao meio sua esposa para casar somente com suas qualidades.

 

O organismo Brasil, assim como eu, precisa aprender com seus erros e acertos para avançar em direção à maturidade. É em face deste desafio que é importante dialogar e refletir sobre o legado de Lula. Como dissemos, é impossível dissociar sua dimensão luz de suas sombras. Assim como no caso de minha esposa, o pacote é completo e não dá para ficar apenas apaixonado por suas qualidades ou odioso por seus defeitos. É preciso colocar na balança suas heranças positivas e negativas para que seu legado seja julgado da forma mais justa possível.

 

Diante deste relevante momento histórico, acredito ser importante o posicionamento respeitoso de cada cidadão neste tribunal social para que possamos amadurecer coletivamente. Eu respeito profundamente os que consideram o ex presidente como um personagem negativo de nossa história recente. Entretanto, considero Lula um líder que trouxe muito mais benefícios do que malefícios ao nosso país. Meu argumento é mais ou menos simples: seu governo se igualou negativamente a todos que o antecederam nos últimos 500 anos com relação à corrupção, mas se diferenciou positivamente nos avanços sociais. De qualquer modo, acho que ele não deve ser candidato à presidência. É preciso sim refletir sobre os erros. O organismo Brasil precisa seguir adiante, amadurecendo gradualmente sua democracia e avançando em direção à justiça social. Minha preocupação maior é que neste exato momento a corrupção continua a todo vapor em prol de outros grupos políticos e econômicos, enquanto as conquistas sociais estão sendo desmontadas rapidamente e sorrateiramente. Precisamos tirar o tapume dos olhos e construir coletivamente o Brasil que queremos, com menos paixão e muito menos ódio.

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Cidadania Planetária – Vídeo

 

Texto Cidadania Planetária e o lugar de onde eu venho – Júlio Resende

Leitura:

Jocimary Brandão (Português)

Araceli Serantes Pazos (Galego)

Carlos Serantes Prieto (Castellano)

Juan José Bueno Aguilar (Castellano)

Júlio Resende (Português)

Edição – Júlio Resende

Produção – Jabuticabeiras Produções

 

 

O lugar de onde venho.

Tem árvores enormes para a meninada subir e comer fruta no pé.

Tem montanhas verdes, chapadas avermelhadas e planícies que somem no horizonte. É lindo.

As cachoeiras se transformam em riozinhos, que contornam os morros, ganhando volume a cada afluente, até  chegarem ao mar… este sim parece não ter fim, cheio de vida e de barcos.

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Convivência de paz na diversidade

Neste vídeo, comento brevemente sobre Gandhi, Luther king, Mandela e Dalai Lama como exemplos recentes sobre convivência de paz em meio à diversidade. Precisamos mesmo encontrar caminhos para esta convivência harmônica.

 

Este é um dos grandes desafios deste século. Antes da internet, era até possível viver uma vida de pouco contato com diferentes culturas, músicas e religiões, o que facilitava nossa existência como Narcisos, embevecidos com nossos próprios rostos no espelho. No entanto, a sociedade em rede está proporcionando uma transparência nunca antes vista e um amplo diálogo global. Nós, humanos, estamos nos conhecendo de uma forma que não nos conhecíamos. Como não estávamos acostumados a tanta diversidade, suponho que temos muita dificuldade e muito medo de reconhecer que as outras culturas são tão bonitas quanto as nossas. Como bem disse Chico Buarque, ‘filha do medo, a raiva é mãe da covardia’. Toda essa intolerância global deste momento histórico é, portanto, fruto também deste medo de ver diluir a nossa própria cultura em meio a uma multidão de culturas, deixando-nos duvidosos sobre nossa própria beleza. Uma das reações imediatas dos mais amedrontados é atacar às outras pessoas por meio de uma violenta intolerância. Em busca de uma possível solução, proponho, ludicamente, uma oração a ser recitada por cada pessoa três vezes ao dia: “Eu sou bonito, mas os outros também são bonitos/ Eu tenho defeitos e os outros também/ Eu posso aprender com eles, assim como eles podem aprender comigo”. Imagino que assim, aos poucos, o medo da diversidade irá diminuir no coração de cada um.

 

Ao vivenciar muitas culturas e países, descobri que, por dentro, somos iguaizinhos. Por um lado, somos inteligentes, colaborativos, amorosos e dialógicos. Por outro, somos sombra, raiva, medo e intolerância. Nesta dimensão íntima, o desafio é comum a todos os humanos: buscamos a felicidade, o amor e uma vida plena de sentidos. Em uma outra dimensão, também interna, brotam as culturas, que são infinitamente diversas. As cores, os sons e os sabores se espalham pelo planeta por meio de beleza que não acaba mais. Diante deste cenário, duas questões desafiam a todos: a primeira é como fortalecer nossa identidade cultural, reconhecendo que ela é bonita, mas também incompleta e, por isso, pode ser aprimorada; a segunda é aceitar que as outras culturas também sejam bonitas e incompletas. Gostar de rock’n’roll não implica na necessidade de inferiorizar a música sertaneja. Os dois estilos levam à emoção.

 

O antropólogo Wade Davis ressalta a linda e importante herança cultural que há na Terra ao falar sobre a existência de mais de três mil religiões. Tratam-se de milhares de formas criativas para o dialogar com o Mistério. É preciso valorizar e reconhecer que este é um dos maiores legados e tesouros da humanidade.  Se por um lado seria uma espécie de sorte que somente a nossa religião fosse a correta, por outro, seria um empobrecimento completo do potencial humano se considerássemos que as outras 2999 formas de espiritualidade estivessem equivocadas. No entanto, há um caminho possível para a convivência harmônica: basta compreendermos que somos bonitos e incompletos, na mesma medida em que os outros também são bonitos e incompletos.  Diante deste contexto, o aprendizado por meio do diálogo é o melhor caminho.

Nem a Escola da Ponte resiste às sextas-feiras

Realizei recentemente o sonho de conhecer a Escola da Ponte, em Portugal. Para dizer que é um local muito especial e uma referência para a educação de todo o mundo, bastaria colocar aqui o título do livro que Rubem Alves escreveu sobre ela: “A escola com que sempre sonhei sem imaginar que pudesse existir”.

 

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Durante minha visita pela Escola, fui recebido e guiado pela Ivana, estudante de 10 anos, que me explicou o funcionamento básico. Os professores não dão aulas expositivas ou respostas prontas. Não há nem mesmo salas de aulas tradicionais. Os estudantes se organizam em grupos, contendo inclusive crianças de diferentes idades. Eles escolhem um tema para pesquisar durante 15 dias. Neste processo, sempre em salas grandes, com mesas redondas, computadores e livros, eles escolhem um professor tutor, que participa como orientador deste aprendizado. Eles conduzem todo o processo e, ao final, avaliam o que aprenderam e o que gostariam de aprender mais. Tudo isso permeado por diálogos e muita autonomia.

 

Os estudantes também participam ativamente da gestão desta escola que, vale ressaltar aqui, é pública. Eles fazem assembléias todas as sextas-feiras, sem a necessária presença de professores, para debater as questões coletivas e os projetos a serem executados na escola. Muitas ações são conduzidas por eles mesmos, sob supervisão dos pais e dos educadores.

 

Ao final, conversei um pouco com a diretora da escola. Ela me contou que a maior dificuldade é a rotatividade de professores, devido ao sistema de meritocracia que o governo utiliza para direcioná-los às instituições de ensino a cada início de ano. O problema e o grande desafio alí é manter a pedagogia com a troca frequente dos educadores. Neste momento, me lembrei que a Ivana também havia falado sobre isso. Quando eu a perguntei como eles faziam para resolver, a menina me disse que os próprios alunos ensinam os novos professores sobre o funcionamento da escola. Neste momento, me apaixonei pela segunda vez com o local. A primeira havia sido pela leitura do livro do Rubens.  

 

A educação com base na autonomia, na leitura de mundo, no diálogo e na colaboração que nos mostrou Paulo Freire é a realidade de hoje nesta escola, que muito nos inspira. Eu acredito profundamente na capacidade que temos de reinventar nossa educação e dedico meu trabalho como educador para isso. Quero que os estudantes amem as escolas e que os educadores sejam parceiros nesta amorosidade em busca do aprendizado constante e de nossa vocação de Ser Mais. Vale lembrar que não estamos falando de uma iniciativa pontual. Todas as escolas da Finlândia funcionam de forma semelhante.    

 

Ao final, perguntei à simpática e inteligente menina se ela gostava de sua escola. Ela me disse, com olhos brilhantes, que a amava muito. De forma provocante, indaguei também se ela gostava mais da sexta-feira ou da segunda-feira. Com um leve sorriso no rosto, me respondeu: mas é claro que é da sexta-feira. Sorrimos juntos.

 

 

 

Videoaula – A vida na Crise e o despertar pessoal

Nesta aula, Prof. Júlio Resende reflete sobre as causas da crise humana, a vida em meio ao desequílibrio e o despertar em direção a novos estilos de vida.

 

Sustentabilidade, Crises e Transição Planetária

Nesta videoaula, Júlio Resende fala sobre Sustentabilidade do ponto de vista de uma nova ética que está surgindo. A partir das crises, há uma transição planetária em direção às sociedades sustentáveis.

 

 

Não havia luta do bem contra o mal

Nas últimas eleições presidenciais, Aécio foi o mais votado no Mato Grosso. Muitos amigos, colegas e conhecidos de lá achavam que ele era um super herói gestor de Estado moderno e eficiente. Eu tentei alertá-los de que não era bem assim por conhecê-lo desde os tempos de Minas Gerais. De fato, seu histórico era muito pouco conhecido nacionalmente, para além das montanhas. Fui duramente criticado por votar em Dilma, mesmo tendo justificado que meu voto era na canditada menos ruim. Na época, eu disse com alguma coragem que era melhor votar no “Rouba, mas faz social” do que no “Rouba, mas faz empresarial”. Eu argumentei que os canditados se igualavam no que tinham de pior e se diferenciavam no que tinham de melhor. Em outras palavras, se igualavam na corrupção, mas se diferenciavam na prioridade. Minha opção era, portanto, por quem dava alguma prioridade a mais pelas conquistas sociais. Como se vê, posicionar é sempre muito difícil, mas é fundamental porque aqueles que não o fazem são apenas arrastados pelas maiorias. As constatações da corrupção de Aécio desta semana confirmaram que nossos votos estavam todos sujos. Portanto, vale reiterar agora que não havia uma luta do bem contra o mal ou honestos contra corruptos. Todos aqueles que baseram seus votos nestes argumentos estão sendo obrigados, neste momento, a reconhecer sua inocência e analfabetismo político. O contexto era e continua sendo mais complexo do que essa dualidade apresentada, o que nos exige cada vez maior consciência política e maior necessidade de engajamento e participação. Só podemos sair melhor desta.

 

Publicado em 18 de maio de 2017