Duas concepções opostas de felicidade. Qual é a sua?

Por: Júlio Resende

O facebook adverte: este é um texto muito longo para a ansiedade por rolar a barra da timeline e ver a maior quantidade de posts possíveis. Ainda assim, imagino que felicidade seja um tema que vale a pena refletir, mesmo que sejam três páginas inteiras cheias de letrinhas.

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Acredito que todo ser humano tem uma coceirinha interna que é sua inabalável vontade de ser feliz. Cada sociedade ou pessoa, a cada época histórica, define e redefine um conceito de felicidade. Afinal, tudo muda o tempo todo. A planta cresce, a nuvem passa, nós envelhecemos e novas músicas são criadas. A idéia de felicidade também muda constantemente. O que não muda é a vontade de ser feliz. Acordamos todos os dias com esta coceirinha, mesmo que, por diversos motivos, não nos sintamos tão felizes assim.

Há que diferenciar, no entanto, a felicidade baseada em fatores externos daquela guiada principalmente por fatores internos. Na nossa sociedade atual, há uma idéia de que felicidade está ligada àqueles momentos de alegria, conquistas, festas e bem estar. E mais importante ainda, a felicidade existiria somente diante dadas condições, definidas por um grupo ou um por um indivíduo. Por exemplo, um surfista depende do mar para ser feliz. Se por acaso ele precisar, por motivos de força maior, se mudar para longe do mar, sua felicidade estaria abalada. Por este ponto de vista, é possível ser feliz apenas em alguns momentos da vida, diante de condições muito específicas.

Assim nasce a necessidade de controle. Tentamos controlar nosso corpo, mantendo-o magros. Tentamos controlar nossa companheira para transformá-la naquilo que achamos ser melhor para ela. Tentamos controlar nossos colegas de trabalho para atingir as metas. Tentamos controlar a conversa do bar para impor nossas ideias revolucionárias. Tentamos controlar nosso alunos para que passem no vestibular. Tentamos controlar os cidadãos para que votem nos nossos candidatos. Tentamos controlar nosso planetinha, minerando serras e desviando rios inteiros. Somos, assim, uma sociedade sedenta por poder porque a felicidade como acreditamos estaria no controle das coisas e das situações.

Mesmo que fosse possível ter todo este controle, a felicidade não duraria muito, pois tudo muda o tempo todo. Sidarta, o buda histórico, chamou isto de transitoriedade das coisas. Por isso, mesmo que consigamos aumentar nosso poder sobre as coisas, ainda sentiríamos a insatisfatoriedade. Ele nos ensinou isto há 2600 anos atrás. Não há como fugir desta lei fundamental da natureza, Na visão budista, portanto, a causa do sofrimento está ligada a esta percepção enganada do mundo e da felicidade. Além disso, não há, para esta filosofia, uma separação precisa entre o dentro e o fora. Neste caso, não adianta ser uma jovem linda, loira, rica e beber somente drinks de vodka bidestilada, produzida pelos ursos polares do Vladvostoki, na tundra siberiana. Esta mulher, mesmo podendo usufruir destas tão sonhadas condições, não experimentaria felicidade por se irritar com cada garçom a cada vez que atrasar seus mimos. Ela aprendeu que felicidade está ligada ao controle do mundo externo e não ao crescimento interno.

Na nossa sociedade, gastamos em cosmético o que daria para resolver o problema da fome no mundo cinco vezes. Estamos esfacelados por dentro e tentando camuflar a capa. Mas não se enganem não, os olhos são janela da alma e não há produto no mercado que os faça ter o inconfundível brilho da felicidade. A ditadura da beleza e da juventude é uma flecha em pleno vôo rumo à infelicidade, pois a única certeza que temos é que envelhecemos a cada segundo. Futebol é outro ótimo exemplo deste modelo falido de felicidade. O humor do início de cada semana é definido pelo resultado do nosso time no domingo. É ou não um conceito frágil?

O capitalismo foi tão brilhante como buda para fazer este diagnóstico, mas, ao invés de propor um profundo método para a felicidade plena, ele vende a felicidade em latinhas de alumínio. A última coisa que compramos é aquele líquido preto, gasoso e delicioso que tem na lata de Coca. O slogan diz tudo: abra a felicidade. Aproveitando da insatisfatoriedade, o capitalismo nos engajou em uma corrida maluca, a cem por hora, na Matrix da produção e do consumo. A idéia é conectar produtos e serviços a doses de felicidade, gerando um ciclo vicioso. No entanto, ao nos prometer felicidade a partir do consumo, deu, a longo prazo, um tiro no pé, pois não entregou o prometido. Nos encontramos em pleno século 21 solitários, ansiosos, deprimidos, amedrontados, competitivos, etc.

Estamos com nosso mundo interno desequilíbrado, mas a coceirinha é inabalável e o momento histórico é de buscar uma nova idéia de felicidade. Por isso, as igrejas, os aeroportos, as cidades turísticas, as ecovilas e as ciclovias estão lotadas. A partir do vazio deixado por um conceito frágil de felicidade, estamos buscando novas experiências para construir novas formas de ser feliz.

É diante deste contexto que o budismo tem se difundido mundo a fora, não como religião, mas como filosofia de vida e, principalmente como método para um amadurecimento rumo a uma felicidade plena. Os milhares de budas (mentes despertas) espalhados mundo a fora ensinam sobre um outro conceito de ser feliz, ligado ao mundo interno. Felicidade, neste caso, não estaria relacionada à momentos de alegria, mas à forma como experimentamos internamente os altos e baixos da vida. Felicidade estaria ligada à inteligência emocional. O monge Mathieu Richard explica que as pessoas que não desenvolvem esta inteligência são arrastadas por suas emoções durante seus dias, meses e fases da vida. Brigar com a companheira, perder o emprego, encarar uma doença ou até mesmo o simples enfrentar uma longa fila no banco se tornam motivos relevantes para nossas emoções negativas tomarem conta. É importante ressaltar aqui que desenvolver o controle das emoções não é se tornar passivo. Muitas pessoas confundem o termo zen com pessoas apáticas. A metáfora que o monge utiliza para nos ensinar sobre isso é que somos surfistas. Ora estamos na crista da onda, ora estamos afogando e dando cabeçada no fundo de pedras do mar. Esta é a vida emocional moderna. O treinamento da mente e das emoções não paralisa a vida e o seu ciclo de vir-a-ser em ondas. Quanto mais treinamos, mais suavemente encaramos as experiências, como remadores em alto mar. Ora estamos no alto da onda e ora remamos no pé delas. Mesmo com este movimento, o fundo do mar permanece sempre profundo, evitando assim o bater da cabeça nas pedras a cada momento difícil.

O principal método ensinado por buda foi a prática meditativa. A meditação, ao contrário do que muitos acham, não é não pensar. Também não é ficar refletindo sobre as coisas. Meditar é treinar a mente e o controle das emoções. Meditar é aprofundar o mar e acalmá-lo. Os anos de prática geram um profundo autoconhecimento e gradualmente ensinam que não há separação entre o que acontece lá fora e o que se passa dentro de nós. Quando começa a chover, há duas possíveis respostas opostas. Uma primeira pessoa poderia dizer: que ódio, chuva atrapalha meu dia e engarrafa o transito. A segunda diria: que maravilha, chuva refresca, faz os passáros cantarem e meu corpo vibrar a cada gotinha. A chuva é a mesma, mas a forma como a experimentamos é diferente. O segundo conceito de felicidade está menos ligado ao controle do mundo externo e mais à maturidade do mundo interno, que gera uma abertura para encarar de de forma positiva cada experiência. Já pararam para pensar que reclamar do calor e da chuva não vale a pena, pois há uma certeza inabalável de que eles sempre virão, um após o outro, infinitamente?

Meditação é, portanto, um profundo método para a conquista gradual deste segundo conceito de felicidade. Imagino que Guimarães Rosa estava correto ao dizer que In-felicidade é mesmo uma questão de prefixo. Suspeitei desde o princípio que ele era uma mente desperta.

Sustentabilidade, na minha opinião, é a sociedade que estamos construindo a partir do abandono do primeiro conceito de felicidade em prol da segundo.

Por: Júlio Resende

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