Medo da chuva?

Na cidade, somos como frango de granja. Vivemos em bolhas que nos distanciam no entorno imediato. Moramos em caixotes de concreto, nos locomovemos em máquinas completamente vedadas, trabalhamos em outros caixotes e, para divertir, dirigimos até os enormes caixotes de compras. Neles, o êxtase: luzes, cores, sonhos encaixotados, ar condicionado e estacionamento pago. Há uma falsa sensação de que estamos no controle de tudo: do clima, das máquinas, do transporte, das luzes…

Repare naquele momento em que o vento anuncia a chuva. A cidade muda de humor. As pessoas caminham com rapidez e comentam como se fosse a primeira vez. Portas de lanchonetes são fechadas. O barulho urbano aumenta. A inquietude é geral. Aí, a chuva chega e vem limpando as calçadas e as ruas. Quem consegue, se esconde debaixo de marquises. Uns poucos não podem evitar e correm freneticamente para entrar no ônibus. De um forma geral, as pessoas sentem medo. Alegam ser inconveniente trabalhar molhado e ficar gripado. O medo é cinestésico. A granja urbana não prepara o corpo para o toque de milhares de gotinhas geladas, que sente estranheza e frio.

A chuva me faz lembrar o maravilhoso ano que morei na Nova Zelândia fazendo um intercâmbio colegial. Aprendi muito com aquele povo sobre integração com a natureza. Os Maoris, povos tradicionais, em conjunto com os ingleses, formaram uma cultura que nâo tem medo da chuva. Nada muda no humor coletivo quando São Pedro está lavando os céus. Mesmo no frio, é comum ver pessoas andando descalças no meio da chuva. Para eles, basta uma capa. É muito bonito ver idosos fazendo caminhada na chuva. São pessoas extremamente saudáveis.

O adulto neozelandês sorri por dentro quando chove. Já as crianças brasileiras dão gargalhadas quando tomam chuva. Minha infãncia foi de muita chuva. Era uma alegria correr na enxurrada. As células festejavam. Todo o calor produzido era instantaneamente resfriado pelas gotinhas. A água escorria pelo rosto dando uma sensação engraçada nos cílios. Jogar bola na chuva era um evento especial. Nadar era espetacular e pedalar… Não consigo nem contar. Só não digo que tenho saudade, pois continuando tomando todas as chuvas que aparecem na minha frente.

Alegria ou medo dependem do observador. Enquanto crianças saudáveis se re-ligam ao todo maior por meio da ludicidade da chuva, frágeis adultos morrem de medo empoleirados nas marquises. É possível gostar de chuva? Sim, claro. Basta vencer o condicionamento. Para muitas tradições espirituais, vencer o condicionamento é acessar o livre-arbítrio, é fazer uma escolha original. Será este o caminho para a felicidade e a liberdade?

Por: Júlio Resende Duarte

www.dezporhora.org

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s