A educação infantil e o vício em trabalho

Por: Júlio Resende Duarte

O mais comum hoje em dia é ser um cidadão desequilibrado. Somos orientados a trabalhar muito em detrimento de outras áreas da nossa vida. O nosso modelo de sociedade, norteado pela física clássica e pela ideologia do progresso, forma pessoas dependentes do trabalho (workaholic). Para ser feliz, é preciso trabalhar cada vez mais para gerar cada vez mais conforto para sua família. É claro que todo desequilíbrio tem suas consequências como cansaço, estresse, nervosismo, baixa qualidade de vida e saúde debilitada. No mundo corporativo foi até criado um termo para demonstrar o sentimento de pessoas, com idade entre 40 e 50 anos, que já dedicaram excessivamente seus primeiros vinte anos profissionais ao trabalho e são dispensados por suas empresas por quererem dedicar mais à família e ao lazer. Este é o complexo do bagaço de laranja. Enquanto têm muito suco, os profissionais são desejados pelas corporações. Mas quando sobra apenas o bagaço, sobram também apenas empregos secundários.

Este é um problema que afeta os adultos de hoje, mas já se pode prever que afetará ainda mais crianças que estão sendo educadas para este desequilíbrio. A educação tradicional, vale dizer, a educação bancária (ver Paulo Freire) acredita que quanto mais a criança decorar informações mais inteligente será. Um amigo meu esteve em uma reunião escolar de início de ano de seus irmão de oito anos. Sabe qual era o tema? Vestibular. Pois é, tem escola que tem orgulho de dizer que já está preparando seus estudantes para o vestibular antes mesmo dos dez anos, ‘afinal de contas o mundo lá fora é muito competitivo’. Agora pergunto: por quê estas escolas, consideradas de qualidade, ainda não incorporaram a teoria da múltiplas inteligências publicada em 1975 pelos estudiosos de Havard. Preparar para o vestibular é trabalhar a capacidade de repetição destas crianças. Mas como ficam suas inteligências musical, interpessoal, cinestésica e outras?

Para tentar resolver este problema, os pais modernos criam agendas de mini-executivos para seus filhos que devem acordar bem cedo, ir para escola, almoçar, aprender piano, ter aulas de karatê, estudar francês, aprender a cozinhar até que o árduo dia se acabe. Parte desta solução é também porque os próprios pais não tem tempo de ficar com seus filhos e terceirizam sua educação. No entanto, há também a importante justificativa de que o mundo é muito competitivo e as crianças precisam estar preparadas para ele. Será que elas serão viciadas em trabalho quando adultos? Será que este ciclo vicioso será mantido?

Eu acredito nas novas pedagogias que educam para o desenvolvimento das múltiplas inteligências e de cidadãos equilibrados, a partir da colaboração e da construção de conhecimento. A educação da repetição é desenvolver a dimensão galinha do ser humano (ver Leonardo Boff em Águia e a Galinha) que é o apego ao cotidiano, à prisão psíquica da mesmice e o medo do novo. Por outro lado, as pedagogias mais modernas (ver pedagogia construtivista e Waldorf) priorizam talentos, formam cidadãos éticos, profissionais felizes e pessoas equilibradas. Elas despertam a dimensão águia que há dentro de todos nós.

Em mais uma excelente palestra, o filoso e educador brasileiro Mário Sérgio Cortella fala sobre a criança em seu mundo, suas agendas de mini-executivos, suas inseguranças e impaciências modernas. Assistir esta espetacular palestra proporciona muitos argumentos para uma melhor educação das nossas crianças. Boa aula!

Júlio Resende Duarte
Educador, Palestrante e Consultor em Gestão, Turismo e Sustentabilidade
Bolinha de Gude: Educação para a sustentabilidade

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