Capacitação de mão-de-obra em arquitetura de terra: a experiência em Santa Luzia/MG – Por Fred e Daniel

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As técnicas de construção em terra crua constituem, no mundo atual, uma alternativa na construção civil de minimização do impacto ambiental, além de alcançar elevados índices de desempenho térmico, possibilitando ambientes construídos mais saudáveis ao ser humano. Dentro de outro enfoque, a utilização das técnicas construtivas em terra crua garante, de maneira adequada, a preservação e a conservação das edificações do passado colonial. Experiências diversas tem nos mostrado o lamentável panorama de desaparecimento dos ofícios tradicionais relacionados à construção. A imposição do cimento como base e matéria-prima para a execução dos mais diversos tipos de obras desencadeou um processo depreciativo sobre as tecnologias do passado, cujo legado foi-nos transmitido pelos nossos ancestrais. O atual panorama do patrimônio cultural mineiro é preocupante, considerando-se o abandono e descaso com o quais os bens culturais vêm convivendo.

Embora Minas Gerais apresente um programa de proteção e documentação do patrimônio cultural estadual pioneiro no país onde, através da Lei Robin Hood – critério ICMS Cultural, os municípios se beneficiam de repasses financeiros obtidos pela manutenção da politica cultural local, observamos que, na prática, as ações de recuperação sobre o patrimônio construído são, por vezes, ministradas e/ou empregadas de maneira incorreta.

A falta de informação técnica constitui portanto um dos principais equívocos sobre o patrimônio edificado. No âmbito da restauração de monumentos, torna-se indispensável ações fundamentadas em conhecimentos técnicos acerca das tecnologias construtivas do passado. As cidades do passado colonial foram erguidas a partir de tais técnicas e constituem, ainda nos dias de hoje, o registro material dos fatos históricos formadores da nossa sociedade. Aliada à favorável política de proteção existente em Minas Gerais, a capacitação técnica de mão de obra torna-se fundamental nos procedimentos de restauração de bens imóveis.

Ações pontuais de capactitação de mão-de-obra para tais fins têm-se mostrado muito válidas em cidades cujo centro histórico está vulnerável à descaracterização ou apresenta risco de desaparecimento. Em outubro de 2009, foi realizado em Santa Luzia, na região metropolitana de Belo Horizonte, o curso de capacitação em arquitetura de terra, promovido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG em parceria com a Prefeitura Municipal de Santa Luzia, sob orientação técnica da O3L Arquitetura. O município apresenta um núcleo histórico com edificações remanescentes dos séculos XVIII e XIX, construídas em estrutura autônoma de madeira e vedação em pau-a-pique ou adobes. Este conjunto recebeu proteção legal, através de tombamento realizado pelo IEPHA/MG em 1998. A carência de profissionais especialzados nessas tecnologias e a necessidade de garantir a integridade e homogeinedade do conjunto arquitetônico, levaram a Prefeitura Municipal e o IEPHA/MG a promover uma formação que envolvesse os profissionais locais diretamente ligados às obras de manutenção do patrimônio edificado. A experiência mostrou-se válida considerando-se o engajamento dos pedreiros, arquitetos e engenheiros do município e do próprio IEPHA/MG. A metodologia adotada pela O3L Arquitetura visou, sobretudo, a sensibilização dos participantes, tornado-os agentes multiplicadores, convencidos das possibilidades tecnológicas da terra crua associada aos materiais tecnicamente compatíveis, como a cal por exemplo. O uso indevido de certos materiais sobre as alvenarias em terra crua contribuem para a descaracterização e processo de ruína do monumento. Tal fato está atribuído, em grande parte, à falta de informação técnica relativa aos procedimentos condizentes a este tipo específico de vedação.

Ações como esta contribuem enormemente para a preservação e manutenção das cidades históricas testemunhas do passado colonial. Além de valorizar e sensibilizar os construtores locais, que atuarão como multiplicadores do “saber-fazer” ancestral, desenvolve-se, posteriormente, de forma autônoma, a mão-de-obra nativa, independendo, portanto, de agentes externos nas obras de restauração então programadas. Não obstante, o aprendizado de tais técnicas possibilita a aplicação dessas tecnologias em novas construções, reduzindo gastos e impactos ao meio ambiente.

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Um pensamento sobre “Capacitação de mão-de-obra em arquitetura de terra: a experiência em Santa Luzia/MG – Por Fred e Daniel

  1. Mto legal essa série de artigos sobre bio-construção, continuem nos apresentando, ensinando e acima de tudo informando novidades e projetos ligados a sustentabildade, permacultura, etc. Deixo a ideia de escreverem uma materia falando sobre banheiro seco, estrutura, fotos, utilização dos detritos. A troca do banheiro convencional para o banheiro seco em alguns lares com certeza seria um bom começo!!! abraço e novamente parabéns pela iniciativa!

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