Arquitetura Sustentável – por Fred e Daniel

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É com grande prazer que o bolinha de gude inaugura este espaço para o debate sobre arquitetura e sustentabilidade. Esta é a vocação deste blog. É também um prazer receber a visita destes dois amigos e Dom Quixotes Frederico Prates e Daniel Quintão. Ambos são arquitetos, competentes, construtores da sustentabilidade e sócios da O3L Arquitetura.

As construções, quando planejadas sem ter como referência a sustentabilidade, causam inúmeros e graves impactos ambientais e sociais. Neste sentido, a arquitetura é uma das áreas que mais tem trabalhado em prol de soluções. Em muitos casos, as soluções encontradas nos mostram que são muito mais simples do que imaginamos. Vale a pena conferir. (Júlio Resende)

CONSTRUÇÕES EM TERRA CRUA – UMA OPÇÃO CONSCIENTE

Nunca falou-se tanto em desenvolvimento sustentável como nos dias atuais. Afinal o que vem a ser sustentabilidade? Qual a sua implicação em nossas vidas? Será que estamos vivendo uma era de transformações na maneira de pensar o comportamento da humanidade diante da utilização dos recursos naturais? Sustentabilidade é um conceito sistêmico relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana. No plano das ações que compete a nós cidadãos, somos responsáveis em incorporar tal conceito em nossos hábitos diários. Pequenas atitudes implicam resultados consideráveis.

Diante do atual panorama de desenvolvimento mundial, observamos uma incessante busca por alternativas para uma sociedade harmonica com seu habitat natural. E para tal, nada mais justo que buscar novas tecnologias e ciências que considerem um ambiente de desenvolvimento sustentável para nosso planeta.

Analisando nosso referencial histórico e cultural, encontraremos inúmeras possibilidades construtivas que permitirão um uso mais consciente e sustentável dos métodos e meios de produção, permitindo uma co-relação amigável entre ser humano, seu abrigo e meio ambiente. Tal possibilidade pode ser calcada nas construções sistematizadas em terra crua, sistema construtivo ancestral, baseado em alvenarias e vedações constituídas por barro não cozido, ou seja, cru.

Foi nos saberes populares, na história construtiva de cidades históricas e nos edifícios testemunhos que verificamos sistemas construtivos baseados nas alvenarias em terra crua, uma cultura construtiva que permeou os saberes não só no Brasil, como também em todo o mundo. A arquitetura em terra, nesses primórdios, consistiu num processo não industrializado de produção arquitetônica, e que ainda resiste como patrimônio mundial da humanidade.

O uso da terra crua como matéria prima para construções remonta a mais de 10.000 anos, sendo a África e o Oriente Médio, as regiões onde foram encontrados os registros mais remotos do domínio das técnicas da construção de edificações com terra crua. É sabido também que, nas Américas, existiram construções de adobe em quase todas as culturas pré-colombianas.

Influenciados diretamente pelos conhecimentos acumulados nos continentes africano e asiático, os colonizadores europeus fizeram uso dessas técnicas não apenas na construção de muitas de suas cidades, como também nos territórios de suas conquistas a partir do século XV.

A utilização da terra crua como elemento construtivo chegou ao Brasil de várias formas. Com o processo de colonização, foram introduzidas as técnicas do adobe e também da taipa-de-pilão, porém acredita-se que o fenômeno dos arquétipos evidenciou que os nativos locais, os índios brasileiros, e os africanos que aqui chegaram como escravos, já dominavam as técnicas do pau-a-pique e da taipa.

Com a difusão das técnicas em terra crua por todo território nacional formou-se também um vasto acervo histórico-cultural constituído por edificações que tem estes sistemas construtivos enraizados em sua matriz estrutural.

Tais técnicas, transpostas para um contexto contemporâneo, podem proporcionar, além de ambientes construídos diferenciados, uma mudança no modo de construção latente no momento, visando, além do próprio espaço construído, edificações que zelem pela sustentabilidade, reduzindo a emissão de carbono no seu processo de produção e proporcionando o resgate de uma tradição cultural.

Aliado a um projeto arquitetônico eficaz, a edificação em terra crua miniza impactos ambientais em âmbitos multilaterais, tais como uma menor emissão de carbono devido ao baixo consumo de materia prima provenientes de petroleo ou cimento, além do aproveitamento das propriedades de isolamento termo-acústico presentes na densidade elevada do barro, que geram abrigos com alto índice de conforto ambiental, o que minimizam o uso de equipamentos de refrigeração que acabam por consumir índices elevados de energia.

Tal fato, aliado às tecnologias já disponíveis no mercado (reuso de água, captação das águas pluviais, aquecimento das águas de banho por radiação solar, a automação de equipamentos, etc) podem gerar edificações, de pequeno a médio porte, extremamente dinamicas e sustentáveis, que tenham menor  impacto ao nosso meio ambiente.

O sistema contrutivo baseado em terra crua visa a utilização da matéria prima disponível no local, no caso a propria terra do terreno, equalizando melhor os custos finais da obra, inclusive no que diz repeito aos deslocamentos, fretes e custos com a compra de material. E por se tratar de um metodo construtivo menos impactante, as edificações em terra crua podem ainda pode ser aliada a revestimentos que seguem a mesma linguagem, tais como os rebocos e tinta a base de terra, que também não utilizam compostos quimicos ou poluentes.

A variedade e aplicação dos materiais e técnicas construtivas em terra crua são numerosas, visto a grande diversidade territorial brasileira e, sobretudo, as peculiariedades climáticas e geológicas de cada um dos locais. No entando, a partir da uma análise pormenorizada de cada um dos casos, adaptando-se às condições físicas locais, é possivel adotar tais técnicas como alternativa na produção arquitetônica de pequeno a médio porte, sendo mais uma posssivel solução mitigadora de impactos.

Texto: Frederico Prates e Daniel Quintão – Arquitetos

O3L   a r q u i t e t u r a

A O3L Arquitetura é uma empresa de arquitetura que atua área da construção contemporânea de baixo impacto ambiental e do patrimônio cultural, sediada na cidade de Belo Horizonte/ MG. No campo da construção contemporânea compromete-se utilizar os materiais disponíveis e de baixo impacto ao meio ambiente, valendo-se de uma linguagem arquitetônica contemporânea, que engloba as  tecnicas construtivas em terra crua. No domínio do patrimônio cultural, o trabalho de restauração arquitetônica é entendido como uma importante ação de preservação ambiental e de permanência cultural, visto que as técnicas construtivas a ela relacionadas permitem a integração do objeto construído ao ambiente e garantem a transmissão das culturas construtivas locais. A empresa conta com a coordenação dos arquitetos e urbanistas Daniel Martins da Costa Quintão e Frederico de Sá Senna Prates, ambos com formação específica na área de patrimônio, diplomados pela Escola de Arquitetura do Instituto Metodista Izabela Hendrix no ano de 2003, em Belo Horizonte.

Link para esta reportagem no portal uai

http://noticias.lugarcerto.com.br/imoveis/template_interna_noticias,id_noticias=35798&id_sessoes=318/template_interna_noticias.shtml

CONSTRUÇÕES EM TERRA CRUA – UMA OPÇÃO CONSCIENTE

Nunca falou-se tanto em desenvolvimento sustentável como nos dias atuais. Afinal o que vem a ser sustentabilidade? Qual a sua implicação em nossas vidas? Será que estamos vivendo uma era de transformações na maneira de pensar o comportamento da humanidade diante da utilização dos recursos naturais? Sustentabilidade é um conceito sistêmico relacionado com a continuidade dos aspectos econômicos, sociais, culturais e ambientais da sociedade humana. No plano das ações que compete a nós cidadãos, somos responsáveis em incorporar tal conceito em nossos hábitos diários. Pequenas atitudes implicam resultados consideráveis.

Diante do atual panorama de desenvolvimento mundial, observamos uma incessante busca por alternativas para uma sociedade harmonica com seu habitat natural. E para tal, nada mais justo que buscar novas tecnologias e ciências que considerem um ambiente de desenvolvimento sustentável para nosso planeta.

Analisando nosso referencial histórico e cultural, encontraremos inúmeras possibilidades construtivas que permitirão um uso mais consciente e sustentável dos métodos e meios de produção, permitindo uma co-relação amigável entre ser humano, seu abrigo e meio ambiente. Tal possibilidade pode ser calcada nas construções sistematizadas em terra crua, sistema construtivo ancestral, baseado em alvenarias e vedações constituídas por barro não cozido, ou seja, cru.

Foi nos saberes populares, na história construtiva de cidades históricas e nos edifícios testemunhos que verificamos sistemas construtivos baseados nas alvenarias em terra crua, uma cultura construtiva que permeou os saberes não só no Brasil, como também em todo o mundo. A arquitetura em terra, nesses primórdios, consistiu num processo não industrializado de produção arquitetônica, e que ainda resiste como patrimônio mundial da humanidade.

O uso da terra crua como matéria prima para construções remonta a mais de 10.000 anos, sendo a África e o Oriente Médio, as regiões onde foram encontrados os registros mais remotos do domínio das técnicas da construção de edificações com terra crua. É sabido também que, nas Américas, existiram construções de adobe[1] em quase todas as culturas pré-colombianas.

Influenciados diretamente pelos conhecimentos acumulados nos continentes africano e asiático, os colonizadores europeus fizeram uso dessas técnicas não apenas na construção de muitas de suas cidades, como também nos territórios de suas conquistas a partir do século XV.

A utilização da terra crua como elemento construtivo chegou ao Brasil de várias formas. Com o processo de colonização, foram introduzidas as técnicas do adobe e também da taipa-de-pilão[2], porém acredita-se que o fenômeno dos arquétipos evidenciou que os nativos locais, os índios brasileiros, e os africanos que aqui chegaram como escravos, já dominavam as técnicas do pau-a-pique[3] e da taipa.

Com a difusão das técnicas em terra crua por todo território nacional formou-se também um vasto acervo histórico-cultural constituído por edificações que tem estes sistemas construtivos enraizados em sua matriz estrutural.

Tais técnicas, transpostas para um contexto contemporâneo, podem proporcionar, além de ambientes construídos diferenciados, uma mudança no modo de construção latente no momento, visando, além do próprio espaço construído, edificações que zelem pela sustentabilidade, reduzindo a emissão de carbono no seu processo de produção e proporcionando o resgate de uma tradição cultural.

Aliado a um projeto arquitetônico eficaz, a edificação em terra crua miniza impactos ambientais em âmbitos multilaterais, tais como uma menor emissão de carbono devido ao baixo consumo de materia prima provenientes de petroleo ou cimento, além do aproveitamento das propriedades de isolamento termo-acústico presentes na densidade elevada do barro, que geram abrigos com alto índice de conforto ambiental, o que minimizam o uso de equipamentos de refrigeração que acabam por consumir índices elevados de energia.

Tal fato, aliado às tecnologias já disponíveis no mercado (reuso de água, captação das águas pluviais, aquecimento das águas de banho por radiação solar, a automação de equipamentos, etc) podem gerar edificações, de pequeno a médio porte, extremamente dinamicas e sustentáveis, que tenham menor  impacto ao nosso meio ambiente.

O sistema contrutivo baseado em terra crua visa a utilização da matéria prima disponível no local, no caso a propria terra do terreno, equalizando melhor os custos finais da obra, inclusive no que diz repeito aos deslocamentos, fretes e custos com a compra de material. E por se tratar de um metodo construtivo menos impactante, as edificações em terra crua podem ainda pode ser aliada a revestimentos que seguem a mesma linguagem, tais como os rebocos e tinta a base de terra, que também não utilizam compostos quimicos ou poluentes.

A variedade e aplicação dos materiais e técnicas construtivas em terra crua são numerosas, visto a grande diversidade territorial brasileira e, sobretudo, as peculiariedades climáticas e geológicas de cada um dos locais. No entando, a partir da uma análise pormenorizada de cada um dos casos, adaptando-se às condições físicas locais, é possivel adotar tais técnicas como alternativa na produção arquitetônica de pequeno a médio porte, sendo mais uma posssivel solução mitigadora de impactos.

Texto: Frederico Prates e Daniel Quintão – Arquitetos

i b i   a r q u i t e t u r a


[1] O adobe é uma técnica de construção em terra crua, que consiste na moldagem de blocos de terra úmida adicionados, ou não, de palha que, após período de secagem, constituirão tijolos maciços para construção de alvenarias. Diferentemente dos tijolos convencionais, que passam por processo de cozimento em fornos de alta temperatura, o bloco de adobe é configurado por processo de secagem natural, não envolvendo a queima de seus elementos naturais. Após moldados e secos, os blocos de adobe são utilizados para construção de paredes, muros, arcos e cúpulas, e seguem tradicional sistema de assentamento, ou seja, os blocos devem ser dispostos de maneira alternada, utilizando argamassa, também em terra crua, para assentamento dos blocos.

[2] A taipa de pilão é um sistema rudimentar de construção de paredes e muros. A técnica consiste em comprimir a terra em fôrmas de madeira no formato de uma grande caixa, onde o material a ser socado é disposto em camadas de aproximadamente quinze centímetros de altura. Essas camadas são reduzidas à metade da altura pelo processo de piloamento. Quando a terra pilada atinge mais ou menos 2/3 da altura do taipal, recebe, transversalmente, pequenos paus roliços envolvidos em folhas, geralmente de bananeiras, produzindo orifícios cilíndricos denominados “cabodás” que permitem o ancoramento do taipal em nova posição. Essa técnica é usada para formar as paredes externas e as internas, estruturais, sobrecarregadas com pavimento superior ou com madeiramento do telhado.

[3] O pau-a-pique é sem dúvida uma das mais antigas técnicas de construção em terra crua empregada no mundo. Trata-se de um modo de construção que comporta uma estrutura auto-portante, normalmente em madeira, e uma estrutura secundária constituída por uma trama de bambu ou varas de madeira mais esbeltas, entrelaçadas ou pregadas. O preenchimento dos espaços vazios ocorre em argamassa de terra relativamente argilosa e fina, de areia e de fibras vegetais ou animais, aplicada no estado plástico sobre a trama. A terra pode ser extraída no terreno onde ocorre a obra ou nas proximidades. Na execução tradicional, a técnica do pau-a-pique não requer necessariamente meios técnicos avançados, mas sim considerável contingente de mão-de-obra. Em contrapartida, uma execução mais moderna, tal como a projeção pneumática de argamassa, necessita-se de pouca mão-de-obra.

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Um pensamento sobre “Arquitetura Sustentável – por Fred e Daniel

  1. Parabéns pelo texto, muito claro, simples e objetivo, com respaldo histórico e assim incontestável! Temos um modelo, novas e boas tecnologias e temos que lutar acima de tudo pelo apoio em prol dessa nova ordem que é a SUSTENTABILIDADE. A arquitetura ecológica ou bio-construção como vem sendo chamada não é algo novo ou/e em processo de avaliações, é uma realidade! INFELIZMENTE, ainda podemos acompanhar aloprados que têm a coragem de construir uma cidade administrativa (nova sede do governo de Minas) totalmente atrasada, com um gasto absurdo e um desrespeito ambiental medonho!

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