O ódio ao Lula tem 50 anos

Publicado em 19 de março de 2016

 

Minha mãe e meu pai são minha maior referência ética, pois dedicaram suas vidas profissionais para melhorar a sociedade. Minha mãe, Eloisa, foi assistente social e meu pai, Aldeysio, foi professor universitário. Antes mesmo do meu nascimento, eles foram presos políticos e duramente torturados porque trabalhavam pela democracia e pela justiça social. Ambos nunca tiveram cargos políticos e nunca se beneficiaram da política. Até o dia de suas aposentadorias, dedicaram cada dia para transformar a vida dos injustiçados. Mesmo diante de posturas tão coerentes, testemunhei, ao longo da vida, algumas vezes meus pais serem agredidos verbalmente por causa de suas posições políticas de esquerda. Me lembro de uma cena surreal. Logo após a derrota de Lula no segundo turno em 1989, eu, minha mãe e meu irmão estávamos indo ao mercado no fantástico fusquinha da família, que estampava um grande adesivo do candidato derrotado. Ao estacionar, ouvimos um homem gritar com veias estufadas: seus comunistas, comedores de criancinha, vocês devem morrer. Eu, que tinha oito anos e era uma criancinha, fiquei super assustado e sugeri à minha mãe que retirasse o adesivo. Ela respondeu com orgulho e olhos cheios de esperança que o Brasil ainda seria transformado por Lula. Em vários outras ocasiões da vida, vivenciei este mesmo ódio, inclusive ontem ao ser agredido por um debatedor de facebook.

 

Para os mais novos, é importante relembrar que a Ditadura, em parceria com a mídia, principalmente a globo, utilizou todas as formas possíveis para incriminar e destruir a imagem daqueles jovens que trabalhavam pelo mundo mais justo. Enquanto os horrores continuavam nos porões do governo militar, a maior parte das famílias brasileiras, alienadas da política, foram convencidas,  por meio da mídia, que estes universitários, sindicalistas, jornalistas e trabalhadores eram mesmo comedores de criancinha. Estas famílias nutriam um ódio mortal a estes jovens por acreditarem que eram do mal.

 

Lula, antes de ser presidente, foi a maior liderança sindical que o Brasil já teve. Não era só no ABC paulista que fazia a diferença. O fantástico fusquinha foi Lulamóvel em algumas ocasiões quando minha mãe e suas colegas, por meio do sindicato das assistentes sociais, o levavam à Belo Horizonte para ajudar na liderança de suas greves e lutas, contribuindo com muitas conquistas da categoria. Desde a década de 1960, o governo militar, por sua vez, mantinha uma fina sintonia com os industriais e a mídia. Para seus projetos megalomaníacos como a transamazônica, quem mais ganhava dinheiro era a indústria. A globo obteve todas as suas concessões nesta época e, por isso, era porta voz da didatura. O maior interesse desse trio era manter seus poderes sobre um Brasil de uma maioria miserável, sem educação e politicamente analfabeto.

 

Apenas algumas décadas depois, um metalúrgico, sem nível superior, foi eleito presidente e, entre outras conquistas sociais, tirou mais de 20 milhões da pobreza. Os poderosos não aceitam estas transformações, mesmo que estejam ainda ganhando muito dinheiro neste governo. Não é à toa que o prédio da federação paulista de indústrias (Fiesp) estampou impeachment em sua fachada e foi o centro das manifestações contra o Governo.  O ódio ao Lula e à esquerda é, portanto, muito mais antigo e não foi provocado por um sítio e um apartamento. O ódio é a principal ferramenta que o trio poderoso utiliza para manipular uma massa de pessoas para recuperar seu poder total. Ressalto, como conclusão, que este texto não é uma crítica aos manifestantes pelo impeachment, que têm todo o direito de discordar, mas uma tentativa de clarear a origem do ódio para que possam fazer uma oposição menos raivosa e mais propositiva. O Brasil ganhará muito com isso.

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