Geração de 1960 e 2000: argumentos para um checkmate

[VI]

Tenho orgulho de ser filho de mãe e pai que não concordaram com a ditadura militar. Eles fizeram parte da geração de 1960 e trabalharam em função da construção de uma proposta alternativa ao capitalismo. Eles compreenderam que esta forma de organizar as sociedades não nos levaria a um desejado equilíbrio social e que era necessário pensar outros caminhos. Por meio de sua dedicação, eles buscavam justiça social, educação de qualidade, verdadeira participação da população nos rumos da sociedade, paz, acesso à saúde, direito à liberdade de expressão.

Com sua reflexão e prática em suas profissões, nos sindicatos, nas universidades, nos partidos políticos, nas artes, na educação de seus filhos, nas comunidades rurais, eles contribuíram para fortalecer argumentos que denunciavam algumas contradições do capitalismo como a desigualdade, o desequilíbrio social, a pobreza generalizada e a censura da palavra.

Hoje, noto neles e em seus amigos de luta, quando se reúnem para beber cerveja e contar casos, um forte pessimismo, como se eles estivessem perdido a batalha. De fato, é perfeitamente compreensível que pessoas se sintam derrotadas após terem dedicado suas energias durante 40 anos para construir outra realidade e que, ao se depararem com a aposentadoria, viram o capitalismo se tornar cada vez mais fortalecido. Não deve ser nada fácil dedicar a vida em função de um projeto de sociedade e sentir que ele está mais distante do que quando começou sua luta.

Além do aumento do desequilíbrio social, de lá para cá, a bolinha de gude se tornou um lugar insalubre à vida. Os problemas ambientais se agravaram e, hoje, assustam as pessoas. Aparentemente, a luta da geração de 2000, relacionada à construção de um ambiente com qualidade para a vida, também tem encontrado muitas dificuldades para produzir mudanças estruturais. Mas será que as duas gerações falharam? Por outro ponto de vista, é possível entender que elas estão construindo fortes argumentos que poderão ser cada vez mais difíceis de serem justificados pela lógica do crescimento econômico. Seus argumentos mostraram as duas piores conseqüências do capitalismo: a injustiça social e o desequilíbrio ambiental.

Neste momento, os dois argumentos estão se conectando e é a partir deste novo entendimento que as pessoas estão conseguindo cooperar e construir uma outra realidade: a sustentabilidade.  No sensacional livro “Ecologia: grito da terra, grito dos pobres”, Leonardo Boff nos abre a percepção para a relação entre os problemas sociais e ambientais. Ambos são conseqüências do capitalismo e, porém, complementares.  Somados, eles estão colocando o capitalismo em check. Cada vez mais pessoas compartilham a opinião de que é preciso construir um outro futuro. No entanto, é importante ressaltar que o capitalismo está apenas em check, mas não em checkmate. Ele pode se renovar e criar espaço para sua continuidade. O problema é que se for mantida sua lógica aumentam, cada vez mais, as chances do desaparecimento precoce da vida humana e de outras formas de vida. Neste contexto, as lutas das gerações de 1960 e 2000 estão conectando e podem proporcionar o checkmate do capitalismo.

Digamos então que a esquerda social da década de 1960 deu o check no capitalismo e a esquerda verde da geração de 2000 está possibilitando o checkmate. Se fosse um jogo de xadrez, a primeira poderia ser um cavalo e uma torre que encurralaram o rei e a segunda poderia ser o bispo que faltava para fechar a diagonal.

A minha mãe e ao meu pai, que fizeram parte da geração de 60 e se dedicaram para construir um mundo melhor.

[…]

Mas eu insisto
E quem quiser que me compreenda
Até que alguma luz acenda, este meu canto continua
Junto meu canto a cada pranto, a cada choro,
Até que alguém me faça coro pra cantar na rua

[…]

Um chorinho – Chico Buarque

– Júlio Resende –

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4 pensamentos sobre “Geração de 1960 e 2000: argumentos para um checkmate

  1. Julhão, o capitalismo é a exploração do homem pelo homem, e o comunismo é o inverso!

    Não vejo muito sentido nessa linha de pensamento / ação de “lutar contra o capitalismo”. “Capitalismo” é um conceito totalmente difuso e dinâmico. O “capitalismo” sueco é igual ao estadunidense? O chinês é igual ao alemão? (quando eu me pergunto se são semelhantes, questiona mais o julgamento de seus aspectos de “justiça” e “injustiça”). E mesmo o “capitalismo global”, trata-se de um sistema dinâmico, que não permite tirar conclusões estáticas sobre justo e injusto. Veja pré e pós 29, pré e pós II Guerra, pré e pós Bretton Woods, pré e pós 1989, pré e pós Tatcherismo, pré e pós revolução digital, pré e pós crise de 2008…

    Cada geração com seus dilemas, cada qual com suas possibilidades, motivações e métodos de mobilização… Se a geração de nossos pais perdeu (o que não vejo dessa forma) não é porque o capitalismo venceu. Quem perdeu foi o espírito de juventude e ousadia nas trajetórias de gente como José Dirceu, Fernando Pimentel, José Genuíno, Dilma Roussef, etc, etc.

    E somos nós é que temos que tocar em frente. Que nossa sabedoria seja suficiente pra reconhecer os avanços que as gerações passadas conquistaram com muita luta. E que nossa ousadia nos leve a dar os passos à frente e continuar de onde eles deixaram a luta, seja capitulando (alguns) ou com as merecidas aposentadorias (outros muitos).

    Ótimo texto! Semente de boas reflexões!

    Um grande abraço!

    Bruno B.

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    • Patrão,

      Sinta-se membro permanente deste debate. Este blog é para isto mesmo. Precisamos testar a qualidade dos argumentos que estão sendo construídos sobre a sustentabilidade.

      Compreendo e concordo que o texto simplifica demais o capitalismo, tão complexo e dinâmico. Mesmo assim, me posiciono a favor dos argumentos que revelam suas consequências negativas para a humanidade e para a bolinha de gude. Acho que não podemos mais considerar a terra como um supermercado gratuito e as pessoas como recursos humanos. Este é o ponto de vista da sustentabilidade, ou seja, de um entendimento que é preciso construir um futuro mais harmônico entre os seres vivos e sua casa. Hoje, me concentro mais em construir este outro futuro do que ‘lutar contra o capitalismo’. Este projeto de 400 anos já encontrou seus limites. Agora, precisamos olhar para frente.

      Grande abraço e boa viagem.

      Júlio

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  2. De que geração eu sou?!
    Pude ver, na USP dos anos 70 (!!!), a Libelú. Liberdade e Luta… A luta era por direitos democráticos. Para eleger o reitor da universidade, ou, pois é, o prefeito, o governador… Qual é a luta hoje?
    Eu não era um “engajado total” nessa história, pois sentia que a História só seria compreendida quando estivesse nos livros. Ou, quem diria, nos blogs.
    E não é que ela está?!
    É, o capitalismo, a democracia, tem falhas. Mas, não importa. É a r-e-a-l-i-d-a-d-e. Tem regras. E regras às vezes são seguidas e, graças a Deus, às vezes não são.
    Cabe a nós, compreendê-las, como ETs, que monitoram essa estranha raça e a estudam.

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