A febre do planeta e a depressão das sociedades

[ III ]

Terra-maça


De uns quatros séculos para cá criamos uma forma de nos relacionar com nossa casa que tem se mostrado bastante nociva a ela. Em prol dos lucros, do desenvolvimento econômico, das empresas e dos empresários, transformamos a terra em um supermercado gratuito. Nós mineramos, extraímos, cortamos e utilizamos seus recursos em prol deste projeto de sociedade. A terra está ficando cinza e quente. Um grande número de espécies desaparecem a cada dia. Nossos ecossistemas, por sua vez, estão esgotados. Os rios estão sujos, os solos contaminados e o ar poluído. Nossa casa está doente. O aquecimento global é como uma febre em uma pessoa, é um sintoma e uma forma de pedir descanso à sobrecarga.

A sociedade global, por sua vez, não parece estar nada bem. Nossa casa está doente e nós também, afinal ela e nós somos uma coisa só. Vivemos na era da depressão, dos antidepressivos, ansiolíticos. As enormes farmácias das nossas cidades nos indicam que estamos todos doentes. De um certo ponto de vista, o maior hospital da humanidade é o turismo. É comum as pessoas dizerem que trabalham onze meses por ano para tirar um de férias.  Quando em viagem, nos descansamos deste nosso cotidiano que nos deixa doentes. Temos apenas um mês para recuperarmos o equilíbrio que perdemos durante os outros onze meses. Vivemos em um cotidiano de horário extremamente regrado, de muitas contas a pagar, problemas a resolver, relatórios a gerar, filas a enfrentar e o trabalho a acumular.

Estamos desequilibrados e doentes. Para muitas pessoas, como o Leonardo Boff*, não somos (ou estamos) homo sapiens, mas homo demens. De fato, a humanidade está generalizadamente doente. Por causa de nós mesmos, a nossa casa também está desequilibrada e doente. Hoje, temos inúmeros argumentos para compreender que a causa destes problemas é a forma como nos relacionamos com o nosso entorno. A partir do momento em que assumimos este ponto de vista, compreendemos que precisamos buscar um caminho diferente do que o proposto pelos países ricos e pessoas ricas. Por eles, fomos reduzidos a consumidores e recursos humanos, mas somos muito mais do que isso.

“nós somos a Terra, os povos, as plantas e animais, gotas e oceanos, a respiração da floresta e o fluxo do mar […] Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum” (CARTA DA TERRA).

– Júlio Resende


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4 pensamentos sobre “A febre do planeta e a depressão das sociedades

  1. Grande Julio!
    Concordo plenamente. Vivemos sempre correndo à mil por hora, deteriorando nossa saúde, nossa casa. O mundo hoje infelizmente é tomado por organizações fracassadas, que têm como objetivo somente seu lucro e gerar dinheiro para seus acionistas, mas que não tem qualquer compromisso com o Terra, com a sustentabilidade.

    Antigamente, podíamos culpar a elite, governos. Hoje em dia essas organizações e seu capital controlam tudo por onde passam. Ditam regras, compram governos, não têm dono, não têm cara. Fomentam o consumo desordenado, a alienação. Com a crise perderam força, mas não morreram.

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  2. Eu também tenho me sentido doente, como a “nossa casa”… Em tempos difíceis é bom encontrar gente pra conversar, pensar junto e, na melhor das hipóteses, agir junto. Parabéns pela iniciativa e prometo me esforçar pra acompanhar o blog sempre.

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  3. Júlio, tenho pensado muito no significado da palavra sustentabilidade.
    No trabalho, como produzir de forma sustentável, aproveitando ao máximo os materiais de consumo, tentando valorizar a humanidade dos seres humanos, apesar das pressões e metas constantes a serem cumpridas.
    Como dona de casa, penso se apenas separar o lixo é suficiente… às vezes penso que o ideal é o boicote aos produtos industrializados. Esses produtos que alimentam o capitalismo e que nos fazem ficar doentes, que, no final, nos afastam das coisas da terra, da natureza, do sabor e do perfume verdadeiros.
    Penso que sustentabilidade corresponde a viver em equilíbrio os 12 meses do ano… e deixar a Terra viver…

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    • É….
      A coisa está tão crítica que mal notamos os vários sintomas que a nossa casa nos aponta a cada dia.

      Nosso círculo vicioso nos cega e nos esvazia de vida.

      Cada vez sem tempo, cada vez mais egoísta, o homem luta por uma batalha que já está perdida. Pelo menos enquanto grande parte da população se mantiver no rumo do “desenvolvimento” atual…..

      Assim será!

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